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A AURORA DOS CINQUENTÕES
Revista Veja de 9 de julho de 2008
Eles têm
experiência e vitalidade. Em vez de esperarem passivamente pela velhice,
criam seus próprios negócios, estudam para manter a mente ativa e enveredar
por outra profissão. Também se divertem na intimidade.
A
explicação de fundo para isso é, digamos, de saúde pública: as pessoas estão
vivendo mais, e envelhecem melhor.
As
consequências da mudança são as mais diversas. Fazem-se sentir no mercado de
trabalho, nas universidades, na vida privada.
·
Trocam de bom grado o pijama de aposentado pela ousadia de abrir uma empresa
· Preenchem vagas de destaque, e muito bem remuneradas, num mercado
carente de mão-de-obra qualificada.
· Seu contingente aumenta nas carteiras do ensino superior, no qual
eles são calouros com pinta de veteranos.
· Gente madura que faz ioga, musculação ou corrida,
· Como disse o satirista inglês P.G. Wodehouse, sabem que não
existe cura verdadeira para os cabelos grisalhos – e, por isso mesmo, fazem
deles o melhor uso possível.
COM 50 ANOS E SEM PATRÃO
Silvia
Rogar
Donos
do próprio nariz
• Os brasileiros com
idade entre 45 e 54 anos à frente de negócios em estágio inicial
representavam 7% do total em 2001. No ano passado, já eram 17,5%.
• O grupo com 50 anos
ou mais foi o único a aumentar sua participação na população ocupada entre
2003 e 2007.
• 31% deles trabalham
por conta própria. Na média de pessoas inseridas no mercado, esse porcentual
é de 19%.
• Nessa faixa etária,
9% são empregadores, o que corresponde ao dobro da média da população
ocupada em geral.
• 70% das empresas
criadas e geridas por essas pessoas duram pelo menos três anos. Nas demais
faixas, apenas 28% ultrapassam essa marca.
O número
de pessoas que abriram negócios quando já poderiam se aposentar dobrou desde
2001, com bons resultados: suas empresas faturam mais e têm vida acima da
média nacional .
A
explicação para o fenômeno dos cinquentões empresários está na combinação da
inclinação dos brasileiros por empreender com o aumento da longevidade. Nos
anos 1910, a expectativa de vida média no país era de 34 anos. Hoje, está em
quase 73 anos. Atualmente, uma pessoa que chega aos 50 anos com saúde sabe
que ainda terá muitos anos pela frente para fazer o que bem entender.
Essa
disposição para trabalhar até mais tarde vem transformando o conceito de
aposentadoria. "Até os anos 1960, ela era sinônimo de descanso. Passou a ser
encarada como uma recompensa na década de 1970 e, nos anos 1980, como um
direito. Hoje, é a oportunidade de recomeçar",
A
decisão de permanecer na ativa pode traduzir-se numa velhice mais saudável.
Muitos estudos relacionam a aposentadoria precoce ao encurtamento da vida,
em decorrência de depressão, sedentarismo e stress causados pela mudança de
rotina
Empreender aos 50 tem algumas vantagens, mas se está sujeito às mesmas
armadilhas de começar um negócio do zero em idade mais jovem. São erros
comuns, entre todos os "calouros" do empreendedorismo, deixar de estudar o
mercado em que se vai entrar ou não incluir no planejamento de gastos o
montante necessário para o capital de giro.
Adotar
uma visão romantizada do negócio próprio é uma tentação a que o principiante
de faixa etária mais avançada está especialmente exposto. Quem sonha com um
bar ou uma pousada numa praia paradisíaca no fim da vida, em geral, não leva
jeito para ser empresário.
Quando a
decisão de empreender não é apenas uma fantasia, os cinquentões têm mais
chance de sucesso que os mais novos.
·
Isso porque os empresários de 50 anos, em geral, são cautelosos e estudam
melhor a concorrência.
· Eles também costumam ter a seu favor o traquejo na gestão de
pessoas e uma rede de contatos estabelecida ao longo da carreira, o chamado
networking.
Para
quem vai recomeçar
O que pesa a favor
• O autoconhecimento.
É mais improvável que se entre num negócio com o qual não se tenha
afinidade.
• A rede de contatos
que fez ao longo da vida, o chamado networking.
• As experiências
passadas. Elas servem de referência antes de se decidir no que investir.
• O conhecimento
acumulado. Ele resulta em maiores chances de o negócio dar certo.
O que
pode pesar contra
• A visão romantizada.
Se sonha com um café charmoso ou uma pousadinha, provavelmente você não tem
veia empreendedora.
• A arrogância. O bom
empreendedor deve fazer cursos e analisar permanentemente a concorrência –
mesmo já sendo um profissional experiente.
• Excesso de ousadia.
Não há expectativa de retorno que justifique raspar toda a sua reserva nessa
etapa da vida
Recrutados depois da aposentadoria
Marcos Todeschini
Eles já haviam dado sua
carreira por encerrada. Mas, atraídos por ótimas propostas de trabalho,
retornam ao batente para suprir a escassez de mão-de-obra qualificada.
O que
motiva os veteranos a regressar à velha vida no escritório?
-
Condições de trabalho melhores do que
aquelas que haviam deixado para trás.
-
Para atraí-los, as empresas oferecem bons
cargos, horários flexíveis e salários em média 30% maiores que o valor
do último contracheque antes da aposentadoria.
-
Outra razão para o retorno diz respeito
ao sentimento que se abate sobre eles depois de um tempo longe do
batente. Ainda se veem jovens e começam a sentir o "vazio da
improdutividade".
Veteranos que antes tinham dificuldade em arranjar emprego passaram a ser
tão requisitados agora porque há, no Brasil, uma crônica escassez de
mão-de-obra qualificada para desempenhar certas funções – entre elas a de
engenheiro, agrônomo e analista de sistemas
São ao
todo 200 000 vagas ociosas por ausência de gente preparada para ocupá-las. O
que piora a situação é o fato de os recém-formados deixarem a faculdade
despreparados para executar até mesmo funções básicas nas empresas,
Os mais
velhos contam com uma vantagem adicional: ajudam a acelerar a adaptação dos
novatos ao mercado de trabalho. Viram seus mentores.
Entre os
aposentados, há um tipo bem específico que interessa às empresas: aquele que
já havia consolidado a carreira e se mantém, de alguma forma, conectado à
sua área. Ainda assim, elas precisam investir na atualização dos que
retornam. O primeiro mês na volta ao trabalho é de muito treinamento e pouca
produção. Trata-se de um período de "recauchutagem", segundo o jargão das
empresas.
Procuram-se
especialistas
-
Engenharia Civil
-
Engenharia mecânica
-
Farmácia
-
Engenharia química
-
Analise de sistemas
-
Engenharia metalúrgica
-
Agronomia
-
Engenharia Eletrônica
-
Engenharia elétrica
-
Telecomunicações
VETERANOS SE TORNAM CALOUROS
Camila Pereira
Os grisalhos na sala de
aula já não são só os professores. Milhares de pessoas acima dos 50 estão na
universidade em busca de um novo caminho – ou apenas de uma atividade para
ocupar o tempo livre
De volta aos
estudos
Número de
universitários com mais de 50 anos
-
Em 2000 8.700
-
Hoje 20.500
-
Aumento de 136%
Quando
Leda Tella abriu a porta da sala no primeiro dia de aula, a classe fez
silêncio. Os estudantes pensavam se tratar da professora, mas era mais uma
aluna do curso de direito na Fundação Armando Álvares Penteado, em São
Paulo. O motivo do mal-entendido: Leda tem 54 anos. Ela pertence a um
crescente grupo de calouros que ingressa na universidade depois dos 50.
Segundo
o Ministério da Educação (MEC), a concentração deles mais que dobrou desde
2000. Salvo raras exceções, quase todos já têm um diploma de ensino
superior.
Voltam
à sala de aula, basicamente, por dois motivos.
-
Uma parte busca uma atividade intelectual
numa fase da vida em que começa a sobrar Cinquentões como Leda são os
que costumam aparecer em cursos como psicologia, teologia, pedagogia e
comunicação social.
-
O restante, ainda na ativa, mira um plano
B para a aposentadoria. Depois de décadas de carteira assinada, essas
pessoas chegam à universidade à procura de uma segunda formação que lhes
permita trabalhar, enfim, por conta própria. Daí a preferência pelas
faculdades de direito e administração de empresas. A idéia é manter uma
vida produtiva – sem chefe.
Cursar
uma universidade depois de cruzar a barreira dos 50 não é tão fácil. Para
conseguir vaga numa boa faculdade, muitos veteranos enfrentam a maratona dos
cursinhos, uma vez que as matérias cobradas no vestibular não passam de
lembrança remota. Depois de entrar, eles precisam reaprender a estudar e se
adequar aos novos tempos. Alguns contratam professores particulares de
computação para conseguir realizar os trabalhos na tela, algo que eles não
sabem e lhes é exigido o tempo todo.
Pesquisas sobre calouros cinquentões reforçam a ideia de que a volta à sala
de aula na maturidade traz benefícios que vão além de uma eventual guinada
na vida profissional ou da expansão do conhecimento. Uma das mais
abrangentes foi conduzida pela Universidade de Londres.
-
De acordo com os ingleses, o primeiro
efeito positivo diz respeito à construção de uma nova rede de amigos
numa fase da vida em que muita gente se queixa de solidão.
-
O outro se refere ao fato de o ambiente
acadêmico ajudar a manter essas pessoas atualizadas – sobretudo em
relação ao mundo digital, que até então ignoravam.
-
O exercício intelectual tem impacto
positivo também na saúde, ao contribuir para a manutenção da memória e
para a inibição de certas doenças neurológicas, como já foi comprovado
cientificamente.
O
aumento dos estudantes com mais de 50 anos não se restringe ao Brasil.
Trata-se de um fenômeno típico de países em que a população envelhece – e
chega à plena maturidade cheia de saúde e disposição. Também não se limita à
graduação. Em quase todas as universidades brasileiras, há cursos livres
oferecidos a gente dessa faixa etária. Na pós-graduação, por sua vez, o
porcentual dos que têm 50 ou mais cresceu incrivelmente: 110% nos últimos
cinco anos.
Cursos Preferidos
-
Direito
-
Pedagogia
-
Administração de empresas
-
Formação de professor de letras
-
Psicologia
-
Ciências contábeis
-
Enfermagem
-
Teologia
-
Serviço social
-
Comunicação social
VELHICE FICA PARA MAIS TARDE
Silvia Rogar e Sandra
Brasil
Com cuidados estéticos, alimentação
saudável e atividade física, quem faz 50 anos (e não parece) adia a hora de
envelhecer
·
No dia 23 de agosto,
Madonna estará dançando, pulando e se contorcendo de maneira insinuante em
Cardiff, País de Gales, a primeira parada de sua turnê com o novo show,
Sticky & Sweet, que vai até o fim de novembro. Será, a essa altura, uma
senhora de 50 anos, idade que completa uma semana antes, no dia 16. Isto
mesmo:
·
Só no mundo dos
artistas, onde imagem não é tudo mas chega perto, também acabam de dobrar o
cabo dos 50 anos as atrizes Sharon Stone (em março) e Michelle Pfeiffer (em
abril), beldades de parar o trânsito em qualquer tapete vermelho.
·
Ultrapassou a mesma
barreira no ano passado a atriz Christiane Torloni, que na novela das 7 da
Rede Globo, Beleza Pura, disputa com a própria filha o amor de Guilherme
(Edson Celulari, 50 em março).
Como comprovam as contas do dermatologista, da academia e da farmácia, as
mulheres precisam se dedicar com afinco à missão de estar bem na metade da
vida. Homens, um pouco menos, para a eterna inveja delas.
Como cabelo grisalho e rugas discretas nunca foram impedimento para o
sucesso social masculino, permanecem galãs apesar (ou por causa) da idade
madura os irresistíveis
Pierce Brosnan, um poço de charme aos 55, Richard Gere, inalterável jeitinho
carente aos 58, e José Mayer, que, aos 59 e longe de sua melhor forma (por
força do papel, ressalte-se), anda aos beijos com Juliana Paes em A
Favorita, folhetim das 8 da Globo
Cinquentões hoje adotam hábitos alimentares mais saudáveis e põem o corpo
para trabalhar, em academias e em treinos de corrida. "A turma na faixa dos
50 anos foi a que mais cresceu nas escolas. Em 1993, essas pessoas
representavam menos de 4% do total. Hoje são 13%". Ao cuidarem da forma, os
atletas maduros incrementam sua vida social. Em outras palavras: treino
físico também é badalação. A corrida é seguida de jantar com os amigos –
quando não significa uma viagem em grupo.

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