SUMÁRIO DO LIVRO

Prefácio

Agradecimentos

A gênese contemporânea da nação bicolor

Raças não existem

Sumiram com os pardos

O que os números não dizem

Negros e brancos no mercado de trabalho

Alhos e bugalhos

As cotas no mundo

Estatuto das raças

"Classismo", o preconceito contra os pobres

Pobres e famintos

O dinheiro que não vai para os pobres

Educação, a única solução

Há solução

 

APRESENTAÇÃO DA EDITORA NOVA FRONTEIRA

 

Não somos racistas é um livro nascido do espanto. Movido pelo instinto de repórter, Ali Kamel, diretor de jornalismo da Rede Globo, começou a perceber que os diversos projetos instituindo cotas raciais, em tramitação no Congresso, dividem o Brasil em duas cores, eliminando todas as nuances características da nossa miscigenação. Ali Kamel constata que, nesta divisão entre brancos e não-brancos, os "não-brancos" são considerados todos negros: "Certo dia, caiu a ficha: para as estatísticas, negros eram todos aqueles que não eram brancos. Cafuzo, mulato, mameluco, caboclo, escurinho, moreno, marrom-bom-bom? Nada disso, agora ou eram brancos ou eram negros. (...) Pior: uma nação de brancos e negros onde os brancos oprimem os negros. Outro susto: aquele país não era o meu."

A tentativa de entender e reconhecer este novo país fez com que o jornalista, ex-aluno do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ, revisse antigas leituras e pesquisasse documentos, livros e teses. O primeiro capítulo de Não somos racistas mostra como a política de cotas começou a ser construída no governo Fernando Henrique Cardoso em grande sintonia com o que pensava, nos anos de 1950, o então jovem sociólogo Fernando Henrique Cardoso.

Com prefácio da socióloga Yvonne Maggie, uma das maiores estudiosas do assunto no país, o livro de Ali Kamel começou a se desenhar em 2003, quando ele passou a publicar, quinzenalmente, uma série de artigos sobre as cotas no jornal O Globo. Neles, constava o sumiço dos pardos e dos miscigenados nas estatísticas raciais braseiras. Apontava, também, para o fato de que o branco pobre tem a mesma dificuldade de acesso à educação que um negro pobre, levantando a hipótese de que o maior problema do país talvez não seja a segregação pela cor da pele — a sim pela quantidade de dinheiro que se carrega no bolso.

Não somos racistas aprofunda e sistematiza as idéias apresentadas pelo jornalista naqueles artigos: a negação da miscigenação; o "olho torto" das estatísticas que escamoteiam problemas sociais na divisão da população por cores; a situação de negros e brancos no mercado de trabalho; o medo de que uma política de cotas, posta em prática, construa uma separação entre cores que nunca existiu, de fato, no Brasil, promovendo o ódio racial; os estudos científicos que provam que raças não existem e, portanto, não pode haver tratamento desigual para seres humanos iguais. 

 

PREFÁCIO DE YVONNE MAGGIE  

 

ERA UMA SEXTA-FEIRA, FINAL DE TARDE QUENTE DE MARÇO DE 2004.  ESTAVA descendo as escadarias do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da UFRJ, onde sou professora há mais de trinta anos, quando vi um cartaz anunciando um debate sobre o projeto de reforma universitária com a presença do reitor Aloísio Teixeira e de Ali Kamel, entre outros convidados. Resolvi assistir ao evento. O salão nobre estava lotado de uma platéia colorida com algumas lideranças de movimentos negros e estudantes de história, filosofia e ciências sociais. Apesar de anunciarem um debate sobre a reforma universitária, os estudantes disseram que iriam discutir as cotas raciais. Fiquei surpresa. Entre os temas discutidos pêlos estudantes universitários o racismo não costumava ser ponto de pauta.

Ali Kamel foi o primeiro a falar, criticando vivamente a política de cotas. O jornalista, que é também cientista social e ex-aluno do IFCS, expôs o seu ponto de vista de um modo muito singular. Não negava o racismo que, em suas palavras, é um mal que atinge a humanidade, mas sustentava que aqui o racismo não é estrutural e o "classismo" é o mal maior.

O debate no IFCS foi tão emocional como todos os que se seguiram com diferentes personagens e em diferentes cenários. Sua estrutura, quase ritual, em forma de drama social, mudou pouco nesses últimos anos. Posições contra e a favor das cotas na mesa e, na platéia, um grupo ruidoso que clama pelas cotas raciais e acusa de racistas os que criticam a política.

Acusados de defender os privilégios de uma elite branca que se beneficiou e se beneficia com o racismo, o que na nossa sociedade é crime que envergonha, os críticos da política de cotas raciais ficam acuados. Se isso ocorre com aqueles que estão no meio acadêmico ou em ambientes menos formais, mais ainda com Ali Kamel que, além de cientista social e jornalista, é também um importante executivo de jornalismo das Organizações Globo. Executivos de grandes redes, usualmente, não manifestam suas posições pessoais sobre temas nacionais. Por isso, sua participação no debate público é tão importante para demonstrar que as empresas da mídia são instituições formadas por alguns indivíduos que têm opiniões próprias, uma outra batalha que Ali Kamel vem travando com muitas patrulhas de plantão.

Logo no início deste livro, cuja base são os artigos que Ali Kamel vem publicando no jornal O Globo, há um capítulo sobre "raça". "Raças não existem", diz o autor. Ressuscitar esse conceito já negado pela ciência seria uma armadilha para o país. Ali Kamel enfrenta sem medo os números que, em geral, levaram muitas pessoas a se envergonhar do "nosso racismo". Pergunta ainda o propósito de unir "pretos" e "pardos" em uma única categoria, a categoria "negro", e vê aí o desejo dos movimentos negros que querem o país dividido em brancos e negros, idéia essa que desenvolve no segundo capítulo. "Sumiram com os pardos" revela o "truque" que é usado para descrever o país dividido. Os movimentos negros e também os cientistas sociais que se colocaram a favor da política de cotas chamam de "negros" o conjunto de "pretos" e "pardos" conforme as estatísticas oficiais. Assim, em vez de uma população de 5,9% de pretos, as estatísticas divulgadas em prol da política de cotas falam em 48% de "negros". Os 42% de autodeclarados pardos não aparecem. Essa démarche metodológica é explicada em pé de página e confunde a maioria das pessoas para quem "preto" e "negro" eram, até pouco tempo, sinônimos. Entre os 56,8 milhões de pobres, as estatísticas divulgadas pêlos que apóiam as cotas raciais falam em 65,8% de negros e não 7,1% de pretos. Omite-se que os autodeclarados brancos são efetivamente 34,2% entre os pobres, e os autodeclarados pardos, 58,7%. Portanto, diz Ali Kamel, "se a pobreza tem uma cor no Brasil, essa cor é parda". Esta "descoberta", publicada no Globo pela primeira vez em 2003, foi a primeira de uma série que permitiu colocar em xeque um discurso que tentava se impor como verdade para toda a sociedade, o discurso que visava a construir a nação dividida em brancos e negros.

No terceiro e quarto capítulos, chama a atenção para as dificuldades de concluir, com os dados apresentados, que é o racismo que produz as desigualdades entre brancos e negros (pretos e pardos nas estatísticas oficiais). Outros pesquisadores já haviam apontado essa inconsistência, mas à boca pequena, intramuros, no ambiente acadêmico. Diz mais: mesmo se descrevermos o país, conceitualmente dividido entre negros e brancos, esses resultados não nos autorizam a afirmar que tais desigualdades se devem ao racismo dos brancos, como afirmam os defensores da política de cotas.

Mas os modelos estatísticos divulgados pela imprensa não são o único alvo de Ali Kamel que se insurge, no capítulo sete, contra o Estatuto da Igualdade Racial para mostrar que este documento é prova irrefutável de que há quem queira ver o país cindido racialmente. O documento, diz ele, é uma prova de que "querem-nos uma nação bicolor, apenas negros e brancos, com os brancos oprimindo os negros". A solução dada por estes que vêem assim o nosso país nesse documento é investir “ad nauseum” em cotas raciais de todos os tipos. Será esse o Brasil que queremos? Pergunta ele.

Ali Kamel formula então uma outra e muito mais ousada hipótese. E se o problema for a pobreza e não o racismo? Os capítulos oito e nove respondem a esta pergunta afirmando que as desigualdades no Brasil não podem ser explicadas pelo racismo porque o que coloca pretos, pardos e brancos pobres em desvantagem é a própria pobreza.

Depois de ter debatido com os movimentos negros e os formuladores da política de cotas, e acreditando que era preciso investir em programas sociais consistentes, Ali Kamel dirigiu seu olhar crítico para a questão das políticas de transferência de renda. Com a mesma paciência e metódico procedimento sociológico com que decifrou os números das desigualdades "raciais", discutiu as estatísticas divulgadas pelo governo, mostrando que o combate à pobreza está errando a pontaria e que os mais pobres não estão realmente sendo atendidos. A argumentação que ele expôs por meses nos artigos quinzenais do Globo está na segunda parte do livro e cumpre assim a difícil tarefa de discutir políticas públicas com instrumental sociológico, usando uma linguagem que pode ser entendida por pessoas não familiarizadas com o jargão acadêmico.

O último capítulo, antes da conclusão, é uma resposta à pergunta que não quer calar sempre que se criticam as políticas públicas. O que fazer? Ali Kamel sugere uma saída que mesmo parecendo simples não está sendo tomada como prioridade: investimento maciço na educação básica. Os vultosos recursos utilizados em programas sociais deveriam ser dirigidos para as escolas. Em boa hora, cita Sérgio Costa Ribeiro, que também criticou vivamente a política educacional que se estabeleceu como consenso entre educadores e formuladores de política de todas as correntes e partidos, de todas as ideologias e seitas desde os anos 1930. Costa Ribeiro conseguiu também desfazer discursos de verdade e fez o Brasil descobrir que as crianças e jovens não saíam da escola precocemente para trabalhar. Saíam da escola depois de muitos anos passados nela sem serem promovidos e sem direito a diplomas. Fez isso olhando e decifrando números para descobrir que havia na primeira série do ensino fundamental, no início dos anos 1980, quatro vezes mais crianças de sete anos do que esta coorte de idade no Brasil. Graças a esta descoberta, as políticas educacionais puderam ser redefinidas em meados dos anos 1990. Hoje, portanto, há mais esperança do que naqueles anos 1980.

Sérgio Costa Ribeiro demonstrou para os brasileiros que não se devem temer patrulhas ideológicas quando se trata de questões que afetam o país de forma tão central. Mas, com a aceitação das suas hipóteses, que também pareceram ousadas na época em que foram formuladas, acabou provando que água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Ali Kamel vai pelo mesmo caminho.

Este livro reflete o percurso de Ali Kamel e também o de muitos brasileiros que levaram a sério os que propõem a política de cotas raciais e aqueles que formulam as políticas sociais do governo. O que aqui se discute não diz respeito apenas à universidade pública ou aos que recebem os benefícios sociais. O que está em pauta é a nossa concepção de nação, o nosso destino como país e o nosso futuro. Os textos de Ali Kamel têm sido fonte riquíssima de informação e de discussão para pesquisadores pelo país afora. Os artigos revelam um cientista social acostumado a fazer perguntas e a desarmar as armadilhas do óbvio, de discursos que têm pretendido se impor como discursos de verdade. Eu, particularmente, me encanto com seu estilo direto e elegante de tratar essas questões e, mais ainda, com o encontro com esse independente, iconoclasta e ousado crítico da política brasileira.

Rio de Janeiro, 16 de abril de 2006

 

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