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O ex-vice-presidente Al Gore é diretor da Current TV, rede independente de televisão por cabo e satélite, dedicada à não-ficção e voltada para os jovens, com conteúdos criados pêlos espectadores e jornalismo-cidadão. Também é diretor da Generation Investment Management, firma que propõe uma nova abordagem aos investimentos sustentáveis. Al Gore é membro do Conselho Diretor da Apple Computer Inc. e consultor sénior da Google Inc. Foi eleito para a Câmara dos Deputados dos Estados Unidos em 1976 e para o Senado americano em 1984 e 1990. Em 20 de janeiro de 1993 tornou-se o 452 vice-presidente do país, cumprindo essa função por oito anos. É autor do best-seller de 1992, A Terra em balanço: ecologia e o espírito humano. Al Gore e sua esposa, Tipper, moram em Nashville, Tennessee. Têm quatro filhos e dois netos.
APRESENTAÇÃO DE AL GORE
A atual crise climática talvez dê a impressão de ocorrer lentamente; mas na verdade, ela está acontecendo muito depressa, e já se tornou uma verdadeira emergência planetária. Em chinês, a palavra "crise" consiste em dois caracteres. O primeiro é o símbolo de perigo; o segundo é o símbolo de oportunidade. Para enfrentar e vencer o perigo que nos ameaça, primeiro temos de reconhecer que estamos diante de uma crise. Sendo assim, por que nossos líderes parecem não escutar esses sinais de alerta tão claros? Estariam eles resistindo a reconhecer a verdade porque sabem que, no momento em que o fizerem, terão de enfrentar o imperativo moral de agir? Ou será apenas mais conveniente ignorar os alarmes? Talvez seja; mas o fato é que as verdades inconvenientes não desaparecem apenas por não serem vistas. Quando ninguém reage a elas, sua importância não diminui, mas aumenta.
Esta é a última foto do nosso planeta tirada por um ser humano no espaço. Foi realizada em dezembro de 1972 durante a missão da Apoio 17 - a última das missões Apoio - em um ponto a meio caminho entre aTerra e a Lua. O que torna esta imagem tão extraordinária é o fato de ela ser a única foto que temos da Terra tirada do espaço no momento em que o Sol estava exatamente atrás da nave espacial. Da mesma forma que os eclipses do Sol ocorrem apenas nas raras ocasiões em que a Terra, o Sol e a Lua estão posicionados em linha reta, esta foi a única ocasião, durante os quatro anos das missões Apolo, em que o Sol ficou alinhado quase de forma perfeita atrás da Lua enquanto a nave espacial fazia sua viagem. Assim a Terra, em vez de estar parcialmente no escuro, aparece plenamente iluminada. Por tal motivo esta imagem se tornou a fotografia mais publicada em toda a História. Nenhuma outra chega perto. De fato, quando você vê uma fotografia do planeta Terra, 99 vezes em 100, é para esta imagem que você está olhando.
INTRODUÇÃO
Há experiências tão intensas que, quando acontecem, fazem parecer que o tempo simplesmente pára. Quando ele começa a fluir novamente e nossa vida retoma seu curso normal, essas experiências permanecem vívidas. Elas se recusam a ficar no passado, e perduram dentro de nós para sempre. Há 17 anos meu filho mais novo sofreu um acidente grave, quase fatal. Já contei essa história diversas vezes, mas para mim seu significado continua a mudar e se aprofundar. O mesmo vale para a história que há muitos anos tento contar sobre o meio ambiente. Foi durante aquele interlúdio, há 17 anos, que comecei a escrever meu primeiro livro, A Teria em balanço. Por conta do acidente com meu filho, e o modo como ele interrompeu o fluxo dos meus dias e das minhas horas de forma abrupta, comecei a repensar toda a minha vida - em especial minhas prioridades. Felizmente, meu filho há muito já se recuperou. Mas foi durante aquele período traumático que fiz duas mudanças definitivas: prometi a mim mesmo sempre colocar minha família em primeiro lugar; e prometi tornar a crise climática global a prioridade número l da minha vida profissional. Infelizmente, o tempo não parou para o meio ambiente nos anos que se passaram. O ritmo da destruição aumentou, e a necessidade de uma resposta urgente tornou-se mais aguda. Os dados fundamentais da crise climática hoje continuam mais ou menos iguais ao que eram naquela época. A relação entre a civilização humana e a Terra foi totalmente transformada por uma combinação de fatores, incluindo a explosão populacional, a revolução tecnológica, e ainda a vontade de ignorar as conseqüências futuras das nossas ações presentes. A realidade é que estamos em colisão com o sistema ecológico do planeta, destruindo assim seus componentes mais vulneráveis. Aprendi muito sobre essas questões ao longo dos anos. Li muito e ouvi o que têm a dizer os principais cientistas do mundo, que vêm fazendo advertências cada vez mais sérias. Venho observando, com preocupação crescente, a crise se agravar ainda mais rápido do que se esperava. Em todos os cantos do globo - na terra e nas águas, no gelo que se derrete e na neve que desaparece, durante as secas e as ondas de calor, no olho do furacão e nas lágrimas dos refugiados - vemos provas crescentes e inegáveis de que os ciclos da natureza estão passando por profundas mudanças. Aprendi que, além da morte e dos impostos, existe mais um fato absolutamente inquestionável: o aquecimento global causado pelo homem não só existe realmente, como está se tornando cada vez mais perigoso. Ele avança a um ritmo tal que já se tornou uma verdadeira emergência planetária. O que aprendi nestes últimos 14 anos também resulta das mudanças nas minhas circunstâncias pessoais. Desde 1992 muita coisa aconteceu em minha vida. Nossos filhos cresceram e nossas duas filhas mais velhas se casaram. Eu e Tïpper agora temos dois netos. Meus pais faleceram, e também a mãe de Tipper. Menos de um ano após a publicação de A Terra em balanço fui eleito vice-presidente dos Estados Unidos, cargo que exerci por oito anos. Tive oportunidade, como membro do governo Clinton-Gore, de implementar um ambicioso programa, com novas políticas para a crise climática. Naquela época descobri em primeira mão a agressividade com que o Congresso americano resistia às mudanças que desejávamos fazer. Assisti, consternado, à oposição piorar ainda mais a partir de 1994, quando o Congresso foi dominado pelo Partido Republicano, com líderes ferozmente conservadores. Organizei e realizei incontáveis eventos para conscientizar a população sobre a crise climática planetária e para conseguir mais apoio do público para as ações que o Congresso deveria iniciar. Também aprendi muito sobre as mudanças significativas ocorridas nas últimas décadas da "conversa democrática" dos EUA. Os valores do entretenimento, especificamente, transformaram aquilo que costumávamos chamar de "noticiário"; e os indivíduos com voz independente são rotineiramente impedidos de participar do discurso público. Em 1997, ajudei a dar uma virada nas negociações de Kyoto, no Japão, no qual o mundo elaborou um tratado revolucionário destinado a controlar a poluição causadora do aquecimento global. No entanto, ao voltar para os EUA enfrentei uma batalha insana para obter o apoio do Senado para esse tratado. Em 2000, candidatei-me à presidência. Foi uma campanha longa e árdua, que terminou com uma decisão de cinco votos contra quatro na Suprema Corte, para que se encerrasse a recontagem dos votos na Flórida, estado onde a eleição foi decidida. Foi um duro golpe. Vi então George W. Bush assumir a presidência. Em sua primeira semana no cargo, o presidente Bush reverteu uma promessa de campanha para regular as emissões de CO2 - promessa com a qual convenceu muitos eleitores de que tinha uma genuína preocupação com o meio ambiente. Logo depois da eleição, ficou claro que o governo Bush-Cheney estava decidido a bloquear qualquer proposta destinada a limitar a poluição causadora do aquecimento global. O governo lançou um esforço total para invalidar, enfraquecer e, sempre que possível, eliminar por completo as leis e regulamentos já existentes. Chegou a abandonar toda a sua retórica pré-eleitoral sobre o meio ambiente, anunciando que, na opinião do presidente, o aquecimento global não constituía problema algum, em absoluto. Enquanto o novo governo ia se firmando, eu tinha de tomar decisões sobre o que fazer da minha vida. Afinal, eu agora estava sem emprego. Não foi uma época fácil, mas me deu a chance de começar de novo - de dar um passo atrás, considerar bem as coisas e decidir para onde direcionar minhas energias. Comecei a lecionar em duas universidades no Tennessee. Ao lado de Tipper, publiquei dois livros sobre a família americana. Mudamos para Nashville e compramos uma casa a menos de uma hora da nossa fazenda em Carthage. Entrei para o mundo dos negócios e fundei duas novas empresas. Tornei-me consultor de duas grandes empresas de alta tecnologia. Tenho grande entusiasmo por esses empreendimentos, e me sinto afortunado por ter encontrado uma maneira de ganhar a vida e ao mesmo tempo ajudar o mundo - pelo menos um pouquinho - a caminhar na direção certa. Com meu sócio Joel Hyatt, fundei a Current TV, rede de TV por cabo e satélite dedicada a notícias e informações, voltada para jovens na faixa dos 20 anos. A estação se baseia em uma ideia revolucionária na nossa sociedade: os próprios espectadores podem criar os programas, e assim participar do fórum público da democracia americana. Com o meu sócio David Blood, fundei a Generation Invest-ment Management, empresa dedicada a demonstrar que o meio ambiente e outros fatores sustentáveis podem ser plenamente integrados ao processo tradicional de investimentos financeiros, de maneira a aumentar a lucratividade para os nossos clientes e, ao mesmo tempo, incentivar as empresas a agir de maneira mais sustentável. Em um primeiro momento pensei em candidatar-me novamente à presidência, mas descobri nos últimos anos que há outras maneiras de servir ao público, nas quais realmente encontro prazer. Também decidi continuar me pronunciando sobre políticas públicas. Tal como fiz em todos os impasses da minha vida, adotei como foco principal a questão do meio ambiente. Desde a infância, quando passava as férias de verão na fazenda da nossa família no Tennessee, aprendi com meu pai a cuidar da terra, e sempre tive profundo interesse em aprender mais sobre tudo que ameaça o meio ambiente. Cresci um pouco na cidade e um pouco no interior, e a parte de que mais gostei foi a época em nossa fazenda. Desde que minha mãe leu para mim e para minha irmã Primavera silenciosa, o clássico de Rachel Carson, e sobretudo, desde que aprendi o conceito de aquecimento global, nas aulas do professor Roger Revelle, sempre procurei compreender melhor o impacto do homem sobre a natureza. Em meu serviço público sempre tentei implementar políticas para amenizar - e, por fim, eliminar - esse impacto tão nocivo. Durante os anos do governo Clinton-Gore, realizamos muita coisa em relação ao meio ambiente - apesar de que, enfrentando um Congresso republicano hostil, não conseguimos fazer tudo que era necessário. Desde que se iniciou o novo governo venho acompanhando, com preocupação crescente, a anulação quase total de todos os progressos que conseguimos. Depois da eleição de 2000, uma das coisas que decidi foi retomar minhas apresentações de slides sobre o aquecimento global. Reuni esses slides quando comecei a escrever A Terra em balanço, e ao longo dos anos venho ampliando e melhorando essa coleção. Penso que agora ela constitui uma argumentação convincente, pelo menos para a maioria do público, demonstrando que o ser humano é a principal causa do aquecimento global que presenciamos hoje e que, se não tomarmos medidas urgentes, os danos causados ao nosso lar planetário podem ser irreversíveis. Nos últimos seis anos tenho viajado pelo mundo, divulgando as informações que co-letei e falando para quem quiser ouvir. Já fiz minha apresentação de slides em instituições de ensino, cidades pequenas e grandes. Tenho sentido, cada vez mais, que estou conseguindo mudar o modo de pensar de alguns; mas é um processo lento. Depois da minha apresentação para um grupo em Los Angeles, certa noite na primavera de 2005, algumas pessoas me procuraram sugerindo que eu fizesse um filme sobre o aquecimento global. Estavam ali presentes algumas figuras bem conhecidas do mundo do entretenimento, como a ativista ambiental Laurie David e o produtor de cinema Lawrence Bender. Vi que suas intenções eram sérias; mas eu não tinha ideia de como transformar em filme a minha apresentação de slides. Eles me apresentaram a Jeff Skoll, fundador e dire-tor executivo da Participant Productions, que se ofereceu para financiar o filme, e a um veterano de muito talento, Davis Gug-genheim, que se interessou em dirigi-lo. Mais tarde, Scott Burns entrou na equipe de produção e Lesley Chilcott se tornou nosso co-produtor e "chefe da expedição". Eu tinha uma grande preocupação: ao transformar a apresentação de slides em um filme, não queria que o papel central da ciência fosse sacrificado em nome do entretenimento. Mas ao conversar com esse grupo extraordinário, senti que cada um deles estava profundamente empenhado nos mesmos objetivos que eu buscava. Assim, fiquei convencido de que o filme era uma boa ideia. Para atingir de forma rápida o maior público possível, em vez de continuar falando com apenas algumas centenas de pessoas de cada vez, a solução era fazer um filme. Esse filme, também intitulado Uma verdade inconveniente, já foi realizado, e tenho grande entusiasmo por ele. Entretanto, antes ainda do filme surgiu a ideia de escrever um livro sobre a crise climática no planeta. Foi minha esposa, Tipper, quem primeiro sugeriu que eu elaborasse um novo tipo de livro, com imagens e gráficos que tornassem a mensagem mais fácil de assimilar, combinando minha apresentação de slides com muitos materiais novos e originais reunidos nos últimos anos. A propósito, 100% dos lucros do livro e do filme serão doados por mim e minha esposa para uma campanha bipartidária, não-lucrativa, que tem por objetivo influenciar a opinião pública americana, de modo que ela apóie certas iniciativas corajosas necessárias para deter o aquecimento global. Depois de mais de trinta anos estudando a crise climática, tenho muita coisa para compartilhar. Procuro contar essa história de uma maneira interessante para todos os tipos de leitores. Minha esperança é que aqueles que lerem o livro ou assistirem ao filme comecem a sentir o mesmo que eu: o aquecimento global não é apenas uma questão científica, nem política. É, na verdade, uma questão moral. Por vezes, é verdade que a política deve desempenhar um papel crucial para resolver o problema; mas este é o tipo de desafio que deveria transcender por completo as divisões partidárias. Assim, quer você seja Democrata ou Republicano, quer tenha votado em mim ou não, espero que sinta que o meu objetivo é compartilhar com todos a minha paixão pelo planeta e a minha profunda preocupação pelo seu destino. É impossível sentir uma coisa sem sentir a outra, quando conhecemos todos os fatos. Também desejo transmitir minha forte sensação de que o problema que enfrentamos agora não é apenas motivo de alarme. De forma paradoxal, também é motivo de esperança. Como muitos sabem, a expressão chinesa para "crise" consiste em dois caracteres paralelos: Mjffl*. O primeiro é o símbolo de "perigo", e o segundo o símbolo de "oportunidade". A crise climática é extremamente perigosa. Trata-se, na verdade, de uma emergência planetária. Dois mil cientistas em uma centena de países, trabalhando por mais de vinte anos na colaboração científica mais elaborada e mais bem organizada que já houve na história da humanidade, chegaram a um consenso excepcionalmente forte de que todos os países do mundo precisam cooperar para resolver a crise do aquecimento global. O volume das provas que temos hoje indica que se não agirmos de maneira rápida e corajosa para enfrentar as causas mais profundas do aquecimento global, nosso planeta passará por uma série de terríveis catástrofes, inclusive furacões mais frequentes e ainda mais violentos do que o Katrina, tanto no Atlântico como no Pacífico. Estamos derretendo a calota de gelo do Pólo Norte e praticamente todas as geleiras de montanhas que existem ao redor do globo. Estamos desestabilizando a maciça montanha de gelo da Groenlândia e a massa de gelo, igualmente enorme, acumulada nas ilhas da Antártida Ocidental. Esse der-retimento ameaça elevar o nível do mar, no mundo inteiro, em até 6 metros. A lista de tudo que está em perigo por causa do aquecimento global inclui também a configuração estável e contínua das correntes e ventos oceânicos - algo que existe desde antes da construção das primeiras cidades, há quase 10 mil anos. Estamos lançando tanto dióxido de carbono na atmosfera terrestre que mudamos, literalmente, a relação entre a Terra e o Sol. Uma parte enorme desse CO2 é absorvida pêlos oceanos; se continuarmos nesse ritmo, aumentaremos a saturação de carbonato de cálcio a ponto de impedir a formação de corais e interferir na elaboração de conchas de diversas criaturas marinhas. O aquecimento global, o corte e a queima das florestas e de outros habitats críticos estão causando o desaparecimento de espécies vivas de maneira comparável à extinção dos dinossauros, ocorrida há 65 milhões de anos. Esse evento, pelo que se acredita, foi causado pelo impacto de um asteróide gigante. Mas desta vez não é um asteróide em colisão com a Terra que causa caos e destruição: somos nós mesmos. Em 2005, as academias nacionais de ciências dos onze países mais influentes do mundo se uniram e fizeram um chamado em conjunto. Eles apelaram a todas as nações para que "reconheçam que a ameaça da mudança climática é bem clara e está aumentando", e declarem que "a compreensão da ciência sobre as mudanças climáticas é hoje clara o suficiente para justificar que os países tomem ações imediatas". Assim, a mensagem é clara e inequívoca. Esta crise significa "perigo!". E por que os nossos líderes parecem não escutar essa advertência tão clara? Será que para eles simplesmente não convém escutar a verdade? Se a verdade é desagradável, pode parecer mais fácil ignorá-la. Mas nós sabemos, por amargas experiências passadas, que as consequências dessa atitude podem ser gravíssimas. Por exemplo, quando fomos advertidos de que as barragens estavam a ponto de se romper em Nova Orleans em virtude do furacão Katrina, esses alertas foram ignorados. Mais tarde, um grupo bipartidário de parlamentares, chefiado pelo deputado Tom Davis (Republicano - Virgínia), presidente do Comité de Reforma Governamental, declarou em um relatório oficial: "a Casa Branca deixou de agir, apesar da enorme quantidade de informações que tinha à sua disposição". Afirmou ainda que "a falta de consciência da situação, chegando ao ponto da cegueira, e a falta de coordenação na tomada de decisões agravou e prolongou, desnecessariamente, os horrores causados pelo Katrina". Hoje, estamos vendo e ouvindo sérios alertas sobre uma catástrofe que pode ser a pior da história da civilização humana: uma crise climática global que se agrava rapidamente e está se tornando mais perigosa do que qualquer coisa que já enfrentamos. Ainda assim, esses claros sinais de alerta também encontram pela frente uma "falta de consciência da situação que chega ao ponto da cegueira" - neste caso, tanto do Congresso como também do presidente americanos. Como disse Martin Luther King Jr. em um discurso, não muito antes de ser assassinado: "Precisamos enfrentar o fato, meus amigos, de que o amanhã já é hoje. Estamos de frente para a feroz urgência do agora. E nesse dilema da vida e da história, existe o que se chama de chegar atrasado". "O adiamento é o ladrão do tempo. A vida muitas vezes nos deixa nus, despojados de tudo, e deprimidos pelas oportunidades perdidas. Nos negócios humanos nem sempre contamos com a maré cheia - a maré também recua e abaixa. Podemos clamar, em desespero, para que o tempo faça uma pausa em sua passagem, mas o tempo é irredutível e surdo às súplicas, e prossegue em seu curso. Sobre os ossos embranquecidos e os vestígios caóticos de numerosas civilizações, estão escritas as palavras patéticas: 'tarde demais'. Há um invisível Livro da Vida que registra fielmente a nossa vigilância e a nossa negligência. O poeta Omar Khayyam tem razão: 'o dedo se move, escreve, e depois de escrever, segue adiante'". Mas além do perigo do aquecimento global, esta crise também traz oportunidades sem precedentes. Quais seriam essas oportunidades? Elas incluem não apenas novos empregos e novos lucros, apesar de que haverá muitos. Podemos construir motores "limpos", aproveitar a energia do Sol e do vento, parar de desperdiçar energia, utilizar os abundantes recursos do carvão sem aquecer o planeta. Aqueles que só sabem adiar as decisões e. negar a realidade querem nos fazer crer que tudo isso será muito caro. Mas nos últimos anos, dezenas de empresas reduziram as emissões de gases que retêm o calor na atmosfera, e ao mesmo tempo economizaram dinheiro. Algumas das maiores empresas mundiais estão tratando, agressivamente, de aproveitar as enormes oportunidades económicas oferecidas por um futuro com energia limpa. Contudo, há algo ainda mais precioso a ganhar, se agirmos, corretamente. A crise climática também nos dá a chance de vivenciar algo que poucas gerações na História tiveram o privilégio de experimentar: um compromisso de uma geração; o entusiasmo de ter um propósito moral poderoso; uma causa comum unificadora; a emoção de ser forçado pelas circunstâncias a deixar de lado as mesquinharias e conflitos que tantas vezes sufocam a necessidade humana de transcendência; a oportunidade de nos elevarmos. Quando nos elevarmos, tudo isso vai preencher nossos espíritos e unir as nossas vidas. Os que agora sufocam no cinismo e no desespero poderão respirar livremente. Os que agora sofrem com a falta de sentido na vida encontrarão uma esperança. Quando nos elevarmos, teremos uma revelação fulminante: descobriremos que essa crise não é, de modo algum, uma questão política. É um desafio moral e espiritual. O que está em jogo é a sobrevivência da nossa civilização e a possibilidade de habitar a Terra. Ou, como disse um eminente cientista, a questão é saber se a combinação de dois fatores tipicamente humanos - a oposição do polegar e a evolução do neo-córtex [a parte nobre do cérebro] - é viável neste planeta. A compreensão que ganharemos ao aprender quem realmente somos nos dará a capacidade moral para enfrentar outros desafios relacionados, que também necessitam desesperadamente serem firmados como imperativos morais com soluções práticas. Entre eles, o HIV/Aids e outras pandemias que estão destruindo tantas vidas; a pobreza global; a atual distribuição mundial da riqueza, que flui dos pobres para os ricos; o contínuo genocídio em Darfur; a incessante fome no Níger e em outros países; as guerras civis crônicas; a destruição dos cardumes de peixes nos mares; as famílias disfuncionais e as comunidades desunidas; a erosão da democracia nos EUA; e a volta ao feudalismo no fórum público. Pense no que aconteceu durante a crise do fascismo global. No início, até mesmo a ascensão de Hitler era uma verdade inconveniente. Muitos no Ocidente simplesmente esperavam que esse perigo desaparecesse. Ignoraram alertas claríssimos, fizeram um acordo com o mal e ficaram aguardando, na esperança de que a situação se resolvesse. Depois do Tratado de Munique, que procurou pacificar Hitler, Churchill afirmou, "Este é apenas o primeiro gole, o primeiro gosto dessa amarga taça que nos será oferecida ano após ano - a menos que, por uma recuperação suprema da saúde moral e do vigor marcial, possamos mais uma vez nos elevar e assumir o nosso lugar em defesa da liberdade". No entanto, quando a Inglaterra e depois os EUA e nossos aliados acabaram, por fim, levantando-se para enfrentar a ameaça, conseguimos, juntos, vencer duas guerras simultaneamente - na Europa e no Pacífico. No final dessa terrível guerra, ganhamos a autoridade moral e a ampla visão para criar o Plano Marshall - e convencer o contribuinte americano a pagar por ele! Conquistamos a capacidade espiritual e a sabedoria de reconstruir o Japão e a Europa, e de iniciar a reconstrução dos países que acabávamos de derrotar. Neste processo, assentamos os alicerces para 50 anos de paz e prosperidade. Hoje também enfrentamos um dilema moral e crucial. Em última análise, não se trata de uma discussão científica ou diálogo político. Trata-se de saber quem somos nós como seres humanos. Trata-se da nossa capacidade de transcender nossas limitações, de nos elevarmos para estar à altura dessas novas circunstâncias. Trata-se de enxergar com o coração, e não só com a cabeça, o que se exige de nós hoje. É um desafio moral, ético e espiritual. Não devemos temer esse desafio, mas recebê-lo de braços abertos. Não devemos esperar. Nas palavras de Martin Luther King, "O amanhã já é hoje". Comecei essa introdução falando de uma experiência que tive há 17 anos e que, para mim, fez o tempo parar. Durante aquele doloroso período adquiri uma capacidade que não tinha antes - de sentir como é preciosa nossa ligação com os nossos filhos, e como é solene nossa obrigação de proteger o futuro e o planeta que estamos passando para as mãos deles. Imagine agora, junto comigo, que mais uma vez o tempo parou - para todos nós - e que antes que ele retome seu curso, temos a chance de usar nossa imaginação moral, de nos projetar para o futuro, daqui a 17 anos, e de ter uma breve conversa com nossos filhos e netos, que estarão vivendo no ano de 2023. Será que eles sentirão um amargo ressentimento para conosco, porque falhamos na nossa obrigação de cuidar deste planeta que é a casa deles, e também a nossa? Será que já ferimos a Terra de maneira irreversível? Imagine agora que eles estão nos perguntando, "Mas afinal, o que passava pela cabeça de vocês? Será que vocês não se importavam com o nosso futuro? Será que estavam tão absorvidos na sua própria vida que não conseguiram - ou não quiseram - cessar a destruição do meio ambiente?" Qual seria a nossa resposta? Podemos responder a essas perguntas agora com os nossos atos, e não apenas com promessas. E ao fazer isso, podemos escolher um futuro pelo qual nossos filhos e netos só terão a nos agradecer.
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