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O julgamento do que
observamos reduz ou distorce a capacidade de percepção. Faz com que
formulemos expectativas equivocadas que, por sua vez, respondem por
muitas de nossas frustrações. Quando acontecem no convívio com as
pessoas adotamos atitudes e comportamentos de queixas, reclamações e
cobranças. Com esse cenário fica praticamente impossível cultivarmos as
afinidades em nossos relacionamentos que permitem aumentarmos ou
conservarmos as amizades, bem como irradiarmos uma influência harmoniosa
através de nossas ações, palavras e pensamentos.
JULGAMENTO
Julgamento, no caso,
não corresponde a condenação. É o que achamos em relação ao que
observamos, trata-se de opinião proveniente de nossas conjeturas e
avaliações.
Quando observamos e
ao mesmo tempo fazemos um discurso interior prejudicamos nossa
percepção. Há perda da referência com a realidade do mundo exterior e a
percepção expressa nossas construções interiores.
Ao observar uma flor,
por exemplo, podemos adotar uma de duas atitudes.
Podemos focar nossa
atenção na flor e, sem qualquer discurso interior que pretenda expressar
nossa opinião, abrirmos nossa percepção visual e perceber em detalhes as
formas, cores, tamanho e outras características presentes. Se houver
perfume nossa percepção olfativa seguirá a mesma orientação de dispensar
o julgamento.
A outra atitude é
observar a flor e ao mesmo tempo elaborar discurso interior no qual
registramos: a flor é vermelha, grande, com muitas pétalas, há outras
flores na mesma planta, o seu perfume é acentuado, agradável e faz
lembrar cenas já vividas.
A observação da flor
acompanhada de julgamento faz com a percepção corresponda a idealização
que fazemos dela e às emoções e sentimentos que acontecem em nosso
íntimo. Sem julgamento, permitimos que a flor “diga” para nós o que ela
é verdadeiramente.
COMO PINTAR UMA ÁRVORE
Certos artistas
chineses ao pretenderem reproduzir, por exemplo, uma árvore em suas
telas de pintura dedicam longo tempo na observação do objeto de seu
interesse.
Se dão por
satisfeitos, para iniciar a pintura, no momento em que percebem haver
integração plena entre eles e o que observam, o pintor e árvore formam
uma unidade. Pintam o que a árvore é no lugar daquilo que possam pensar
que ela é.
PERCEPÇÃO NOS
RELACIONAMENTOS
As nossas
expectativas em relação às pessoas são criadas segundo a qualidade de
nossas percepções. As expectativas, nos relacionamentos, representam o
que esperamos das pessoas ou aquilo que pensamos que podem nos oferecer.
Quando fixadas com suporte em percepções equivocadas deixam de acontecer
e como resultado surgem as frustrações.
Além da percepção
deficiente as expectativas também deixam de ser atendidas por serem
desconhecidas, é comum o pressuposto de que o outro tem obrigação de
saber o que esperamos em nossos relacionamentos. Entretanto, esse
aspecto também não deixa de ser uma deficiência de percepção. Não que
haja obrigação de saber quais são as expectativas “secretas” e sim
porque achamos que outro sabe e não atende porque não quer.
A propósito das
expectativas, quanto mais tivermos maiores serão as possibilidades de
colecionarmos frustrações em nossos relacionamentos.
COBRANÇA
A frustração nascida
das expectativas que deixam de ser atendidas redunda em cobranças.
É comum nesse processo
de cobrança, em muitas oportunidades, o outro até ficar surpreso. Mas
por que está me cobrando isso? Eu não prometi fazer essas coisas!
Por outro lado, o
cobrador pensa e até expressa a sua decepção: “nunca imaginei que você
seria capaz de tanta desconsideração, você mudou muito, não é mais a
pessoa que conheci.”.
Como já ressaltado nem
sempre fazemos o outro conhecer quais são nossas expectativas. Achamos
que o outro tem a obrigação de saber o que nós esperamos.
Isso é muito
frequente, por exemplo, nos casamentos.
Os namorados na fase
que antecede a convivência diária elaboram suas expectativas e por que
não dizer muitas verdadeiras fantasias. Deixam de explicitá-las por
diálogos transparentes, ficam cobertas pelo pressuposto de que o outro é
obrigado a saber.
A percepção favorável
que motivou a vida conjunta, nascida em grande parte de julgamentos
equivocados, aos poucos se modifica. Começam a surgir novas perspectivas
que também podem representar percepções ainda equivocadas.
O cobrador pensa e até
expressa a sua decepção: puxa vida nunca imaginei que você fosse mudar
tanto, que fosse me tratar dessa forma.
Nada mudou
simplesmente a outra pessoa passa a ser percebida de maneira diferente.
Pode não ser uma percepção correta, mas outra igualmente equivocada.
SÓ EXISTE NA MENTE DO
OUTRO
Atualmente é comum
ouvirmos referências sobre a “realidade” de mundos virtuais. Será
possível os relacionamentos acontecerem segundo a “realidade” de um
mundo virtual?
Na relação entre
pessoas, em razão de percepções equivocadas, cada um pode criar um
perfil do outro que corresponda à sua percepção e não aos verdadeiros
atributos da personalidade.
As pessoas reais não
estão se comunicando, há relacionamento entre essas fantasias, ou seja,
o que cada um acha que o outro é como base em suas percepções
equivocadas. É um relacionamento de duas criaturas virtuais que não
existem, estão presentes apenas nas respectivas mentes.
Essa condição é
ressaltada por Ermance Defaux eu seu livro “Mereça ser feliz”: “Um
coração amigo em um momento de atribulação íntima discutia celebremente
com as imagens mentais que formulava a cerca de um ente querido de sua
convivência. Envolvido em suas mentalizações discutia, revidava e era
tão descontrolado em seu estado emocional que gesticulava sem se dar
conta que as pessoas a sua volta lhe observavam, uns com preocupação
outros com chacota. Ele estava em plena fila de um banco para quitar uma
conta de telefone.” Ainda segundo Ermance: “O problema não é como
convivemos com o outro, mas sim como convivemos com o que sentimos e
pensamos em relação ao outro.”.
DESENVOLVER A PERCEPÇÃO
Para melhorar a
percepção podemos treinar a visão, audição, paladar, tato e olfato. Há
muitas oportunidades em nosso cotidiano que podem ser aproveitadas para
essa capacitação. Ao atribuirmos importância à percepção será natural o
uso de nossos sentidos com maior acuidade.
O potencial de
desenvolvimento da percepção pode ser notado em alguns exemplos. O
mecânico percebe pelo ronco do motor o reparo necessário, o provador de
café, vinho e de outras substâncias permite estabelecer complexas
classificações de tipos e procedência. A pessoa desprovida de visão
amplia consideravelmente a sua percepção pelo tato. O treino ora
recomendado tem como objetivo:
“desenvolver a percepção pela eliminação de julgamentos enquanto durar a
observação.”
O treino pode
acontecer através de exercícios estruturados. Podemos escolher objetos
ou cenários como uma flor, árvore, um parque, opções que representem de
preferência beleza, harmonia, descontração, bem estar.
Exemplifiquemos.
Observe uma flor como uma câmara fotográfica ou uma filmadora faria,
apenas registro da imagem. Se for algo que tenha som procure apenas
ouvir como um gravador. Educar a percepção sem julgamento, não ache nada
apenas observe.
Uma praça ou um
pequeno jardim são excelentes opções de cenários para treinar a
percepção.
1º exercício: procure
ver tudo que há no cenário, as árvores, flores, bancos, pistas, nuvens e
outros elementos existentes.
2º exercício: ouça
todos os sons existentes, o canto de pássaros, pessoas falando, o vento
e tudo o mais.
3º exercício: procure
sentir o vento, o sol tocando seu corpo, os pés ao caminhar, sentir os
cheiros existentes.
Dedique três minutos
para cada exercício.
OUVIR AS PESSOAS
Para compreender e
conhecer melhor as pessoas é necessário saber ouvir o que dizem com
interesse e atenção. Ao se estabelecer vínculos de empatia podemos
encontrar condições favoráveis para que as expectativas que cada um tem
em relação ao outro possam ser identificadas.
Saber ouvir é concentrar-se no que nos dizem sem interrupções apressadas
e com ausência de julgamento. Não se trata de aceitar e sim de
compreender o que nos dizem.
Saber ouvir melhora
nossa percepção em relação as pessoas. Passamos a conhecê-las melhor,
deixam de ser pessoas “virtuais” apenas existentes em nossas mentes.
Conheceremos suas ideias, sonhos, objeções, preferências que permite,
segundo nossas possibilidades e interesse, preenchermos as expectativas.
Quando não for o caso de atender as expectativas poderemos tornar
conhecidos os motivos, deixam de ser simplesmente desconsideradas.
AFINIDADES
Uma percepção de
qualidade permite conhecer as afinidades que podem oferecer condições de
cultivarmos vínculos de amizade com as pessoas. As afinidades
representam identidade em interesses, ideias e correspondência entre
expectativas.
Relacionamentos bem
sucedidos tem apoio nas afinidades tanto para novas amizades como manter
as que já tivermos.
É possível que
tenhamos 1% de afinidades e 99% de posições diferentes. Se começarmos
pelos 99% o relacionamento não irá prosperar, mas ao começar pelo 1%
podemos gradativamente expandi-lo para 2, 3, 4%, de tal forma que
tenhamos uma soma de afinidades que tornará perfeitamente confortável a
convivência.
Quando a percepção é
equivocada há maior probabilidade de desconhecer as afinidades e nos
entregarmos às divergências capazes de gerar conflitos e inviabilizar o
convívio.
VIRTUDES
O autoconhecimento
pode ser considerado como um procedimento que possibilita melhorar a
percepção de nós mesmos. Se dá pela observação de nossas atitudes,
comportamentos e pensamentos. Não se trata de um tribunal inquisitivo
instalado em nosso íntimo.
A observação revestida
de uma condição de julgamento acaba por desenvolver sentimento de culpa.
Quando o julgamento é substituído por observação tranquila e equilibrada
desenvolvemos o senso de responsabilidade, encaramos os resultados como
consequência do que semeamos na vida. Há, dessa maneira, disposição em
promover a reparação dos resultados negativos. Culpa é estímulo em busca
de punições que produzem sofrimentos sem, contudo, promover a reparação.
O autodescobrimento
pode ser considerado como desenvolvimento de afinidades conosco mesmo
que acontece pelo reconhecimento e treino de nossas virtudes.
Quando consideramos
como prioridade do autodescobrimento o reconhecimento de nossos defeitos
e sua repressão promovemos um relacionamento conosco semelhante àquele
que temos com os outros, voltado exclusivamente para os defeitos e
divergências.
Quando prevalece a
percepção dos nossos defeitos e os dos outros o objetivo do
relacionamento fica restrito à proposta de promover o “conserto” do
outro ou de nós mesmos. Querer “consertar” os outros ocasiona desgaste
nos relacionamentos, afasta-nos das pessoas, enquanto o “autoconserto” é
responsável por insatisfação. O bom relacionamento conosco e com todos
de nossa convivência é um processo de construção que se dá pela
manifestação de nossas virtudes.
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